terça-feira, 18 de maio de 2010

Mobilização geral pelo 18 maio - Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes



Caso Araceli: A impunidade cala a voz da Justiça...




e deixa apenas um vazio, figurado pelo medo e pelas saudades. "A gente não tocava no assunto. Nem com o papai, nem com a Lola. Se o assunto surgisse, ele ficava muito triste. Ele gostava muito da Araceli", lembra o almoxarife Abel Onofre, de 31 anos, irmão da pequena capixaba ícone da luta contra a violência infantil no Brasil. A menina Araceli Cabrera Sanchez, com apenas oito anos em 1973, foi drogada, espancada, torturada, morta e imersa em ácido. Em 1980, três acusados foram julgados e condenados. Tiveram a sentença anulada. Em 1991, julgados novamente, foram inocentados. O crime prescreveu. Já são 35 anos de impunidade.
Era uma sexta-feira, dia 18 de maio, quando a pequena Araceli deixou a escola mais cedo com autorização da mãe para entregar, a pedido dela, uma encomenda a um grupo de jovens, no Edifício Apolo, em Vitória. No envelope, entorpecentes. Os rapazes, cujas famílias integram a mais alta elite capixaba, já estariam drogados e raptaram e menina. Seis dias depois, o corpo dela apareceu completamente desfigurado, jogado em um matagal atrás do Hospital Infantil Nossa Senhora da Glória, em Santa Lúcia.



"Vitória parou. Se você ia à igreja, o padre estava falando disso. Se você ligava o rádio, ouvia sobre o caso. Eu fazia um programa policial, se não tocasse no assunto, os ouvintes reclamavam", relembra o senador Gerson Camata, que foi o último jornalista a entrevistar a mãe de Araceli, Lola, em Santa Cruz de la Sierra. "Após conversar com ela, coloquei na minha cabeça que ela escondia alguma coisa. Ela não estava triste ou revoltada. Ela tinha remorso. Remorso de quem fez algo de muito errado e não podia corrigir. Para mim, ela acobertava quem realmente era culpado. Ela se foi para a Bolívia e levou com ela esse mistério, que agora se perdeu", lamenta.
"Depois do crime, meu pai nunca foi o mesmo. Ele faleceu em 2001, mas o sentimento de indignação ficou. Isso aconteceu há 35 anos, mas até hoje temos casos que ficam impunes por conta do dinheiro envolvido. Imagina o que é perder um filho? Hoje tenho uma menina de quatro anos e a dor seria irreparável", lamenta Onofre.
Desde o ano 2000, no dia 18 de maio é celebrado o Dia Nacional de Combate ao Abuso e à Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes, em homenagem à capixaba. No Espírito Santo, somente até abril deste ano, foram registrados 127 casos de lesões corporais ou ameaças contra crianças - o que representa 40% de todos os crimes registrados pela Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA) no período.
"A impunidade é devastadora e acaba sendo fator que fomenta a criminalidade, pois a pena deixa de cumprir seu papel de prevenção especial em relação ao próprio criminoso, já que ele se sentirá estimulado a cometer novos delitos, bem como deixa de cumprir também seu papel de prevenção geral em relação à população, que ficará descrente em relação à impunidade de um criminoso, fomentando a idéia de que as regras de convivência podem ser desrespeitadas, gerando o caos", acredita o promotor Gustavo Senna Miranda, dirigente do Centro de Apoio Criminal do Ministério Público.
Atualmente, a mãe de Araceli mora na Colômbia, de onde é natural. A última vez que esteve no Brasil foi em 2001, para o sepultamento do pai da menina, o eletricista Gabriel Sanchez Crespo. Ela e os acusados Paulo Helal e Dante de Brito Michelini foram julgados duas vezes. Na primeira, condenados. Depois, inocentados. Quem quer que sejam os assassinos de Araceli não cumpriram um dia sequer de prisão. O processo perdeu a validade e, mesmo se confessassem o crime, eles continuariam impunes.